Acompanhamento Nutricional

A cirurgia bariátrica e metabólica tem como objetivo melhorar a qualidade de vida dos pacientes obesos através da promoção e manutenção da perda de peso programada. É impossível tratar a obesidade sem que haja uma atuação eficiente e integrada de uma equipe de especialistas.

A nutrição clínica vem para somar nesse processo. E pasmem! Esse processo inicia antes mesmo da própria cirurgia. É importante haver correções de eventuais deficiências nutricionais presentes em pré-operatório, corrigir maus hábitos alimentares, instituir uma rotina de adequações comportamentais, reduzir o risco cirúrgico através da perda de peso e abordar com o paciente e seus familiares as mudanças que ocorrerão no pós-operatório.

Após a cirurgia bariátrica, a anatomia do futuro ex-obeso estará alterada: estômago reduzido para uma capacidade gástrica de 50ml e parte do intestino excluído do trajeto alimentar. Tudo isso visando promover uma perda ponderal através da restrição de quantidade alimentar e nutrientes a serem absorvidos. Sendo assim, é importante que ajudemos nossos pacientes a fazer escolhas alimentares mais adequadas, que saibam evoluir as consistências alimentares de modo a manter a integridade dos grampeamentos cirúrgicos e suplementar adequadamente nutrientes (por via oral, endovenosa ou intramuscular) que sabemos por prática clínica e revisão de literatura que ficarão depletados com o tempo.

Desta forma, o acompanhamento nutricional buscará o bem estar físico e emocional do nosso paciente, através da seleção dos alimentos que contenham os nutrientes mais saudáveis e que estejam adequados às necessidades de cada indivíduo para que a rápida perda de peso não leve à desnutrição ou ao temível reganho de peso, caso o paciente não compreenda, dede antes de operar, que bisturi não faz milagre isoladamente.

De maneira geral, a principal mudança na alimentação após a cirurgia é uma diminuição importante na quantidade de alimentos consumidos diariamente devido a redução do estômago. Porém, outros cuidados com a alimentação são fundamentais. Pode-se dividir o cuidado com a alimentação em cinco fases após a cirurgia:

1º fase – fase da alimentação líquida: esta fase compreende as duas primeiras semanas após a cirurgia e caracteriza-se como sendo uma fase de adaptação. A alimentação é liquida e constituída de pequenos volumes (em torno de 50 ml a cada 30 minutos) e tem como principal objetivo o repouso gástrico, a adaptação aos pequenos volumes e a hidratação

2º fase – fase da evolução de consistência: de acordo com a tolerância e as necessidades individuais, a alimentação vai evoluindo de líquida para pastosa com a introdução de preparações liquidificadas, cremes e papinhas ralas. A evolução de cada paciente é variável de forma que a escolha de cada alimento deve ser acompanhada cuidadosamente para evitar desconforto digestivo como dor, náuseas e vômitos. Esta fase tem um tempo de duração diferente para cada indivíduo. Porém, em média, dura em torno de 02 semanas.

3º fase – fase da seleção qualitativa e mastigação exaustiva: passado o primeiro mês após a cirurgia, inicia-se uma fase onde a seleção dos alimentos é de fundamental importância pois, considerando que as quantidades ingeridas diariamente continuam muito pequenas, deve-se dar preferência aos alimentos mais nutritivos escolhendo fontes diárias de proteína, ferro, cálcio e vitaminas. A duração desta fase também varia individualmente e dura em média 01 mês.

4º fase – fase da otimização da dieta: nesta fase a alimentação vai evoluindo gradativamente para uma consistência cada vez mais próxima do ideal para uma nutrição satisfatória. Geralmente, esta fase ocorre a partir do 3º mês após a cirurgia quando quase todos os alimentos começam a ser introduzidos na alimentação diária. O cuidado com a escolha dos alimentos nutritivos deve continuar pois as quantidades ingeridas diariamente continuam pequenas. Nesta fase o paciente pode ser capaz de selecionar os alimentos que lhe tragam mais conforto, satisfação e qualidade nutricional.

5º fase – fase da adaptação final e independência alimentar: esta fase deve acompanhar o paciente a partir do 4º mês e , como nas fases anteriores, também evolui de acordo com as características individuais podendo iniciar-se um pouco antes ou um pouco depois do 4º mês. A partir desta fase, um acompanhamento periódico faz-se necessário somente para o acompanhamento da evolução de peso e levantamento de informações para identificar se existem carências nutricionais como, por exemplo, a anemia. O paciente já tem bastante segurança na escolha dos alimentos e está apto a compreender quais são os alimentos ricos em proteínas, glicídios e lipídios, cálcio, ferro, vitamina A, vitamina C, folatos além de outras propriedades nutricionais.

ALGUNS ASPECTOS IMPORTANTES

O CONSUMO DE LÍQUIDOS. A rápida perda de peso leva a um aumento transitório dos níveis de ácido úrico na circulação. Quando a hidratação não é suficiente poderá haver formação de litíase renal (pedra nos rins). Por este motivo o consumo de líquidos deve ser monitorado para evitar que a urina fique muito concentrada. Mesmo sem sede deve-se então consumir líquidos? Sem dúvida. O consumo de líquidos deve ser constante, independente da sede.

A ESCOLHA DE ALIMENTOS RICOS EM FERRO. Dentre os alimentos mais fibrosos e de aceitação mais tardia está a carne vermelha. Enquanto ela não for introduzida na alimentação, o nutricionista deverá orientar o paciente sobre outras fontes de ferro presentes na alimentação.

A INTOLERÂNCIA AO AÇÚCAR. O consumo de alimentos açucarados deve ser evitado por dois motivos: 1º porque o valor calórico é elevado e 2º, dependendo da técnica cirúrgica, poderá haver Síndrome de Dumping. Uma avaliação da tolerância ao açúcar poderá ser feita desde que acompanhada cuidadosamente pelo nutricionista. Mesmo o consumo de uma pequena quantidade de açúcar pode levar à Síndrome de Dumping? No caso da cirurgia de Capella sim. Apesar de nem sempre ser assim, às vezes o consumo de 01 bala pode desencadear o processo.

O RITMO DE EMAGRECIMENTO. A perda de peso é muito intensa principalmente durante as duas primeiras semanas após a cirurgia. O ritmo acelerado de emagrecimento continua a ser observado até o terceiro mês e, a partir de então, passa a ser mais lento. Este é um processo natural de adaptação fisiológica que faz com que o organismo passe a gastar menos energia diariamente para evitar que a perda de peso rápida e permanente leve à desnutrição e aos conseqüentes riscos à saúde como a queda da resistência à infecções, desmineralização óssea, dentre outros. Há alguma maneira de melhorar o ritmo de perda de peso nesta fase? A melhor forma, além de persistir nas orientações nutricionais, é a atividade física regular. O exercício faz com que o organismo gaste mais energia, o que ajuda a perder peso, além de trazer uma sensação de bem estar e relaxamento.

A NECESSIDADE DO USO DE COMPLEMENTOS DE MINERAIS E DE VITAMINAS. Toda vez que as calorias da dieta são reduzidas substancialmente é necessário complementar vitaminas e minerais. No caso da cirurgia bariátrica, o valor calórico da alimentação se aproxima de 350 kcal nas primeiras semanas e continua inferior a 1000 kcal no mínimo até o sexto mês após o inicio do tratamento. Principalmente durante este período, a complementação é indispensável. Essa complementação deverá ocorrer por via oral e/ou por via endovenosa. Os complementos podem engordar? Não. Vitaminas e minerais não produzem calorias. O que engorda é pizza, sorvete e churros!

Uma boa pedida para você, paciente bariátrico, é manter-se firme nos preceitos desta pirâmide alimentar, onde suas principais escolhas partam da base. O topo da pirâmide….Ahhhh, deixem para o vizinho. Seu corpo e sua mente agradecerão. E sua nutricionista ficará cheia de orgulho!